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B-Naim
III
Eis o meu primeiro caderno
de poemas, que surgiram do
âmago do peito, nas
frias noites distantes do
meu país, e nas noites
tristes do meu Estado, quando
a puerícia poética
dava os seus primeiros alaridos.
Eis aqui as celeumas desesperadas
cantadas num silêncio
absoluto; quando da minha
alma nada poderia sair que
não fosse poesia; quando
senti o peito e a garganta
atravessados por esta dor
de poesia, com este delírio
etílico-poético
que agora vos dou a conhecer.
Eis as poesias dos momentos
em que sorrindo para as faces
entristecidas dos meus amigos,
ocultei na superfície
mais sombria do meu espírito
a dor que consumia a minha
alma, que me dilacerava o
coração, que
gritava contra a felicidade
«este ser tão
ingênuo», e fazia-me
sentir como se não
fosse parte deste mundo, e
que estivesse aqui por acaso,
à mercê do sofrimento
e da dor.
Eis os lamentos dos sorrisos
desperdiçados com aqueles
que comigo sorriam das minhas
próprias desgraças.
Mas enquanto os meus lábios
balbuciavam, a minha alma
gemia calada numa viração
de profunda dor poética
e ninguém foi capaz
de perceber. Ah! Naquelas
noites, – as mais tristes
que este homem pode suportar
– derramei nas surdas
asas da noite uma laboriosa
consternação,
um rebento de frustração
com o presente, incerteza
do futuro e um olhar cheio
de lágrimas sobre o
meu passado.
Naquelas madrugadas meu peito
era feito só de esperança
no futuro incerto e o coração
só de mágoas
profundas e os meus olhos
– estes – só
sabiam chorar e gemer. Poucos
poderão ter-se apercebido
do meu desespero, destes momentos
tão difíceis
que suportei, mas de que adiantaria
se a dor, o desespero e o
sentimento de qualquer espécie
é algo tão solitário
ao ponto de que ao nosso lado
sentindo o calor amigo não
sentimos a dor que lhe corre
na veia.
E quando enfim esta estrada
se foi fazendo em mim, um
golpe nefasto devolveu-me
a dor e o infortúnio
na concatenação
fatal, na saudade extensiva,
nos anseios sofridos, na amargura
da alma. Derramei nas surdas
asas do vento uma quantia
de versos desesperados, que
podem não agradar bem
ao leitor, mas antes terá
me envolvido de desgosto,
vítima dos meus infortúnios,
herdeiro de uma sorte ignava.
Ahhh! Lembrança deste
sonho antigo oculto no âmago
do peito, rarefeito pelas
consternações
das noites em que a poesia
dava os seus primeiros gritos!
Eis que a primeira delas terá
saído do regaço
desta estrelinha, guardada
no espaço pela fome
voraz e insaciável
deste menino perdido no descampado
de muitas flores.
Que desventura fatal, esta
irreconciliável benfazeja
com a minha história.
Não houve um só
momento em que a poesia me
tenha devolvido a dor certeira
herdada nas noites mais tristes
que vivi, nas mágoas
mais fortes que suportei no
peito – frutos de palavras
incumpridas.
Abandonei pedras, espinhos
e pus-me a caminhar ciente
do passado aborrecido, das
pessoas entristecidas que
se entristeceram com as suas
tristezas e transportaram
para o meu mundo esta carga
negativa de energia. Mas livrei-me
delas quando eu mais pude
e olhando além do vale
por entre as pedras medonhas,
por entre os robustos espinheiros
e por entre as árvores
mesquinhas, lá vi as
mesmas caras entristecidas
que se entristeceram com as
suas tristezas – então
sorri!
Depois que parti por esta
estrada que é só
minha, nesta desesperação
procurei um olhar curioso
de um irmão, um som
esperançoso, alguém
que quisesse dividir comigo
um pouco desta dor; com um
mapa riscado à mão
na vontade de riscar o regresso
senti-me diante da imensidão
do mundo, impotente diante
desta liberdade que não
passa de uma farsa: encontrei
apenas a companhia de um par
de sapatos. Convenci-me então
de que nem aqui, nem lá
a minha paz seria uníssona.
Então, a desesperação
gritou em mim, devolveu-me
a frustração,
o desejo da terra, da alma
que lá não encontrarei
– nunca. Descobri que
lá enfadar-me-ia num
curto prazo e desejaria enfiar
a cara no mapa novamente para
outra vez me enfadar! Que
incongruência difícil
de suportar.
Mas o que é o poeta
sem o sofrimento? O desespero
sem a esperança? E
o que é a dor sem a
morte? Eis aqui estes cantos,
semelhantes à erva
daninha, cujos frutos aderem
ao pêlo dos animais
e às vestes dos homens.
Carrapicho. Virem-no e vejam
se não teremos uma
interjeição,
uma nota musical e uma folhagem
de videira, ou uma ave, uma
bazófia ou mesmo uma
vasilha onde aparamos o álcool
que destila do alambique.
Aqui também tens as
notas do desejo de não
ser mais subjugado do que
o amor exige, parte da minha
querença, da minha
condição altruísta;
aqui vês as minhas fantasias
de um mundo de seres e lugares
inventados; aqui tens este
mapa que risquei sozinho,
seguindo o vento mais apressado,
as águas mais opulentas
e os caminhos mais sórdidos.
Aqui tens o grito estridente
deste coração
gelado cujas paredes mais
se assemelham a um iglu, em
dias em que a saudade gritava
na minha fronte; este mesmo
coração que
arde flamejando com os olhos
ébrios pela tua presença,
e este ouvido embriagado pelas
tuas palavras. Lá!
Uma ideia custa a entrar,
e custa mais a sair! E o que
mais tem é a bazófia
do exercício de memória
semelhante aos amantes solitários.
E dirão que não
foi apenas desesperação,
mas eu vos asseguro –
terá sido apenas isto!
Alguns nas suas privações
encontrar-se-ão nestes
poemas, que já deixaram
de ser meus, e aqueles que
comigo sentiram um pouco das
minhas provações
sentir-se-ão atribulados
com a desesperação
destes cantos. Estes, porém,
são apenas uma seletiva
dos primeiros cantos; certamente
outros virão, com a
benquerença de que
ainda mais laboriosos sejam,
mas menos sôfregos no
espírito e que me custem
menos à honra, à
paz, e aos sorrisos vangloriosos.
Os próximos não
seguirão estes mesmos
resquícios quando todo
o esforço que há
em mim ser-me-á daqui
em diante de evitar quaisquer
destes prenúncios;
mas já os meus primeiros
versos sofreram entre eles
alguma divagação
e é certo de que vos
dou a conhecer duas das minhas
maiores consternações.
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