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Carrapicho

Eis aqui estes cantos, semelhantes à erva daninha, cujos frutos aderem ao pêlo dos animais e às vestes dos homens. Carrapicho. Virem-no e vejam se não teremos uma interjeição, uma nota musical e uma folhagem de videira, uma ave, uma bazófia ou mesmo uma vasilha onde aparamos o álcool que destila do alambique. Aqui também tens as notas do desejo de não ser mais subjugado do que o amor exige, parte da minha querença, da minha condição altruísta; aqui vês as minhas fantasias de um mundo de seres e lugares inventados; aqui tens um mapa que risquei sozinho, seguindo o vento mais apressado, as águas mais opulentas, os caminhos mais sórdidos. Alguns nas suas privações encontrar-se-ão nestes poemas.


Grizoste, Weberson Fernandes

Carrapicho – São Paulo/SP Ed. Ixtlan, 2011.

ISBN: 978-85-63869-75-3 1.Poesia 2.Título CDD 869.1

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B-Naim III

Eis o meu primeiro caderno de poemas, que surgiram do âmago do peito, nas frias noites distantes do meu país, e nas noites tristes do meu Estado, quando a puerícia poética dava os seus primeiros alaridos. Eis aqui as celeumas desesperadas cantadas num silêncio absoluto; quando da minha alma nada poderia sair que não fosse poesia; quando senti o peito e a garganta atravessados por esta dor de poesia, com este delírio etílico-poético que agora vos dou a conhecer.
Eis as poesias dos momentos em que sorrindo para as faces entristecidas dos meus amigos, ocultei na superfície mais sombria do meu espírito a dor que consumia a minha alma, que me dilacerava o coração, que gritava contra a felicidade «este ser tão ingênuo», e fazia-me sentir como se não fosse parte deste mundo, e que estivesse aqui por acaso, à mercê do sofrimento e da dor.
Eis os lamentos dos sorrisos desperdiçados com aqueles que comigo sorriam das minhas próprias desgraças. Mas enquanto os meus lábios balbuciavam, a minha alma gemia calada numa viração de profunda dor poética e ninguém foi capaz de perceber. Ah! Naquelas noites, – as mais tristes que este homem pode suportar – derramei nas surdas asas da noite uma laboriosa consternação, um rebento de frustração com o presente, incerteza do futuro e um olhar cheio de lágrimas sobre o meu passado.
Naquelas madrugadas meu peito era feito só de esperança no futuro incerto e o coração só de mágoas profundas e os meus olhos – estes – só sabiam chorar e gemer. Poucos poderão ter-se apercebido do meu desespero, destes momentos tão difíceis que suportei, mas de que adiantaria se a dor, o desespero e o sentimento de qualquer espécie é algo tão solitário ao ponto de que ao nosso lado sentindo o calor amigo não sentimos a dor que lhe corre na veia.
E quando enfim esta estrada se foi fazendo em mim, um golpe nefasto devolveu-me a dor e o infortúnio na concatenação fatal, na saudade extensiva, nos anseios sofridos, na amargura da alma. Derramei nas surdas asas do vento uma quantia de versos desesperados, que podem não agradar bem ao leitor, mas antes terá me envolvido de desgosto, vítima dos meus infortúnios, herdeiro de uma sorte ignava.
Ahhh! Lembrança deste sonho antigo oculto no âmago do peito, rarefeito pelas consternações das noites em que a poesia dava os seus primeiros gritos! Eis que a primeira delas terá saído do regaço desta estrelinha, guardada no espaço pela fome voraz e insaciável deste menino perdido no descampado de muitas flores.
Que desventura fatal, esta irreconciliável benfazeja com a minha história. Não houve um só momento em que a poesia me tenha devolvido a dor certeira herdada nas noites mais tristes que vivi, nas mágoas mais fortes que suportei no peito – frutos de palavras incumpridas.
Abandonei pedras, espinhos e pus-me a caminhar ciente do passado aborrecido, das pessoas entristecidas que se entristeceram com as suas tristezas e transportaram para o meu mundo esta carga negativa de energia. Mas livrei-me delas quando eu mais pude e olhando além do vale por entre as pedras medonhas, por entre os robustos espinheiros e por entre as árvores mesquinhas, lá vi as mesmas caras entristecidas que se entristeceram com as suas tristezas – então sorri!
Depois que parti por esta estrada que é só minha, nesta desesperação procurei um olhar curioso de um irmão, um som esperançoso, alguém que quisesse dividir comigo um pouco desta dor; com um mapa riscado à mão na vontade de riscar o regresso senti-me diante da imensidão do mundo, impotente diante desta liberdade que não passa de uma farsa: encontrei apenas a companhia de um par de sapatos. Convenci-me então de que nem aqui, nem lá a minha paz seria uníssona. Então, a desesperação gritou em mim, devolveu-me a frustração, o desejo da terra, da alma que lá não encontrarei – nunca. Descobri que lá enfadar-me-ia num curto prazo e desejaria enfiar a cara no mapa novamente para outra vez me enfadar! Que incongruência difícil de suportar.
Mas o que é o poeta sem o sofrimento? O desespero sem a esperança? E o que é a dor sem a morte? Eis aqui estes cantos, semelhantes à erva daninha, cujos frutos aderem ao pêlo dos animais e às vestes dos homens. Carrapicho. Virem-no e vejam se não teremos uma interjeição, uma nota musical e uma folhagem de videira, ou uma ave, uma bazófia ou mesmo uma vasilha onde aparamos o álcool que destila do alambique.
Aqui também tens as notas do desejo de não ser mais subjugado do que o amor exige, parte da minha querença, da minha condição altruísta; aqui vês as minhas fantasias de um mundo de seres e lugares inventados; aqui tens este mapa que risquei sozinho, seguindo o vento mais apressado, as águas mais opulentas e os caminhos mais sórdidos. Aqui tens o grito estridente deste coração gelado cujas paredes mais se assemelham a um iglu, em dias em que a saudade gritava na minha fronte; este mesmo coração que arde flamejando com os olhos ébrios pela tua presença, e este ouvido embriagado pelas tuas palavras. Lá! Uma ideia custa a entrar, e custa mais a sair! E o que mais tem é a bazófia do exercício de memória semelhante aos amantes solitários. E dirão que não foi apenas desesperação, mas eu vos asseguro – terá sido apenas isto!
Alguns nas suas privações encontrar-se-ão nestes poemas, que já deixaram de ser meus, e aqueles que comigo sentiram um pouco das minhas provações sentir-se-ão atribulados com a desesperação destes cantos. Estes, porém, são apenas uma seletiva dos primeiros cantos; certamente outros virão, com a benquerença de que ainda mais laboriosos sejam, mas menos sôfregos no espírito e que me custem menos à honra, à paz, e aos sorrisos vangloriosos. Os próximos não seguirão estes mesmos resquícios quando todo o esforço que há em mim ser-me-á daqui em diante de evitar quaisquer destes prenúncios; mas já os meus primeiros versos sofreram entre eles alguma divagação e é certo de que vos dou a conhecer duas das minhas maiores consternações.

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

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